Redes sociais responsáveis pela saída do Reino Unido da UE

redes-sociais-brexitSegundo o jornal The New York Times, o resultado do referendo que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia dificilmente seria uma questão de uma só faceta. Há, afinal, um confronto claro entre gerações, e também não se pode excluir um panorama económico delicado – e nem a forma bastante particular como parte da população encara a imigração. Não obstante, um factor parece ter sido determinante para os desdobramentos: o Facebook.

Não apenas o Facebook, é verdade, mas também o Instagram, o Twitter e, de forma geral, as redes sociais. Afinal, segundo dados da empresa de investigaçãos eMarketer, 33 milhões de pessoas utilizam o Facebook no Reino Unido todo mês. É natural que boa parte do burburinho – e das inclinações sociais – tenham se moldado e se solidificado ali, portanto.

A questão colocada pelo The New York Times, entretanto, vai além da simples busca de um reflexo virtual do que foi visto nas urnas. Quer dizer, para além dos números, será que a acção dos grupos “pró” e “contra” a permanência do Reino Unido na União Europeia não teria sido tão (ou mais) determinante para o parecer favorável ao “Brexit”?

Mais páginas dedicadas

Embora destaquem certa superioridade numérica no grupo pró Brexit, os dados encontrados pelo NY Times sugerem que o grupo também conduziu uma campanha muito mais actuante – e até insistente – ao longo dos últimos meses, em comparação com os defensores da permanência do estado na União Europeia.

Conforme dados da analista parceira do Facebook, a CrowdTangle, durante os 30 dias que precederam a votação do referendo, sete das 20 páginas dedicadas à questão com maior movimentação eram de grupos a favor da separação. E nisso incluem-se até mesmo as duas páginas mais movimentadas durante o período.

Juntas, essas sete páginas produziram mais de 1,3 milhão de interacções – comentários, “gostos” e partilhas em postagens. Apenas duas páginas da lista estavam claramente associadas a campanhas pela permanência do Reino Unido na UE, e ambas somando apenas algo em torno de 150 mil interacções durante o período.

E a busca pelo termo “Brexit” – palavra-valise formada pela fusão de “Britain” (Grã-Bretanha) e “Exit” (Saída) – também apresentou resultado semelhante. Outra páginas arroladas mostraram ainda sites noticiosos dedicados à cobertura do referendo e também colunas de opinião.

Maior movimentação

Uma análise de dois adversários particularmente representativos do combate relacionado ao referendo também mostra a diferença considerável de postura entre apoiantes e antipermanência do Reino Unido na União Europeia. Talvez o ponto mais relevante seja: nas proximidades da votação, não havia uma discrepância tão grande entre os seguidores das duas páginas.

De fato, um dia após a votação, na sexta-feira (24 de junho), a página Britain Stronger in Europe, a favor da permanência do na EU, passava de 558 mil seguidores. Já a Leave.EU, a favor da separação, chegava aos 767 mil – quantia não tão discrepante quanto o desfecho do referendo poderia fazer crer.

Novamente, entretanto, surge a questão do engajamento dos proponentes de uma e outra direção política – ou, em outros termos, o quanto cada abordagem do tema gerou conversações, comentários e novos posts dentro das redes sociais.

Durante os seis meses que antecederam a votação, as postagens pró-permanência somaram 3,3 interacções – enquanto as contra chegaram a 11 milhões, mais do que o triplo. “Entre os grupos do ‘deixar [a EU]’ a mensagem calou mais fortemente e espalhou-se mais no Facebook, por uma larga margem”, coloca John Herrman no seu texto para o New York Times.

Instagram e Twitter

Mas nem tudo se resume ao Facebook, embora a tendência permaneça. Durante o período que precedeu a votação do referendo, o investigador do Oxford Internet Institute, Vyacheslav Polonski, monitorizou as campanhas relacionadas ao Brexit no Instagram. Polonski analisou as actividades de mais de 15 mil utilizadores engajados em discussões associadas ao tema.

“Nós percebemos que os cépticos em relação à União Europeia e os que apoiam o Brexit predominaram nos debates e também utilizaram suas contas no Instagram de forma mais efectiva, mobilizando as pessoas através do país”, escreveu ele no periódico académico The Conversation. “Eles tendem a ser mais passionais, activos e determinados em seu comportamento online”, ele continua, acrescentando que o grupo pró-separação produziram “quase cinco vezes mais” postagens do que seus adversários políticos.

Também as análises de postagens no Twitter levadas a cabo pela Talkwalker mostraram utilização maior de hashtags relacionadas à saída do Reino Unido da UE, sobretudo durante o mês de maio. Com a proximidade das votações, entretanto, as coisas tenderam a se equilibrar e, nos dias finais, havia maior utilização de marcadores associados à permanência do estado.

O meio é a mensagem

Enfim, a despeito do reflexo numérico expressivo dos resultados nas urnas, as campanhas virtuais conduzidas no calor do combate político parecem deixar claro que as redes sociais jamais poderiam ser apenas agentes passivos – por meio dos quais alguém poderia perceber a intenção do público de forma pura.

“O meio é a mensagem”, como foi dito por Marshall McLuhan, muito antes do advento das redes sociais – e mesmo da internet. Senão, tente manter-se impassível diante de frases como “Partilhe se se importa” ou “Assegure-se de votar agora, antes que seja tarde” – ambas frases utilizadas pelos defensores da separação do Reino Unido.

Fontes: New York Times, The Conversation.

António Almeida

António Almeida

Licenciado em engenharia Informático e Telecomunicações, mestre em Sistemas e Tecnologias de Informação e doutorando em Informática é um apaixonado por todo o tipo de tecnologia. Apostava na troca de informações e acaba de criar uma rede de informáticos especialistas interessados em tecnologia.

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