Google está a mudar o nosso cérebro

Memory and brain upgradeTrata-se de um fenómeno que tem sido chamado de “efeito Google”. Surgiu porque usamos tanto a tecnologia para obtermos informações que nos habituamos a não a guardar na memória do nosso cérebro. Se precisarmos saber alguma coisa rapidamente, pesquisamos no Google e está resolvido. Mas até que ponto isto é benéfico?

Este comportamento tem-se notado sobretudo nas instituições de ensino. Muitos alunos já não recorrem à biblioteca como antes e dão pouca importância à memorização, o que pode comprometer processos de aprendizagem. nas empresas os funcionários mais novos podem ficar perdidos na tomada de decisões se não tiverem a tecnologia por perto.
 

Mas afinal o que é o efeito Google?

O efeito Google recebeu informalmente essa denominação por volta de 2010, quando o assunto começou a ser mais estudado. De lá para cá, o fenómeno ganhou mais força por causa dos smartphones.

Em 2010, os dispositivos móveis já eram bastante usados para aceder à internet, mas os computadores ainda dominavam. Hoje, a realidade é bem diferente: por questões de custos e questões práticas, muita gente nem sequer tem um PC em casa, delegando o acesso à internet inteiramente ao seu smartphone.

Em termos práticos a questão é incontestável. Se precisarmos de saber se amanhã é feriado? Tiramos o telefone do bolso e pesquisamos. Qual a temperatura ideal para beber vinho? Idem. Qual a estação de metro mais próxima daquele shopping? Google Maps. Como é “trilião” em espanhol? Google Tradutor. É “mussarela” ou “muçarela”? Recorra ao Google Now.

google cerebroOs exemplos remetem ao Google, mas o acesso rápido à informação não se limita aos serviços da empresa. Hoje, temos à nossa disposição aplicações para bolsa de valores, guia de restaurantes, avaliação de filmes, previsão do tempo, resultado de jogos desportivos, tradução em tempo real, receitas culinárias, agenda e assim por diante.

 

Qual é o problema para o nosso cerebro?

Tudo é tão fácil, tão imediato na internet. O que pode haver de errado nisso? Segundo pesquisadores, acabamos recorrendo tanto à tecnologia que o cérebro se adapta a esse comportamento sem percebermos: a internet aparece com um recurso infindável e permanente, logo, não é necessário memorizar tanto. Se estamos com sede, bebemos água. Se estamos com frio, nos agasalhamos. Se precisamos saber alguma coisa, perguntamos ao Google.

Betsy Sparrow, professora de psicologia da Universidade Columbia, é uma grande estudiosa do assunto. Ela ressalta que o cérebro humano busca, sobretudo, eficiência: se o órgão perceber que vale mais a pena saber como efectivamente encontrar informação do que guardá-la, vai priorizar o primeiro comportamento.

Aí está o ponto de ruptura: nos tornamos excelentes em encontrar informação. As gerações atuais sabem combinar palavras-chave no Google ou accionam o aplicativo certo para cada tipo de atividade de maneira muito mais rápida e efetiva que uma pessoa que não esteve tão imersa na evolução tecnológica.

google-chip-implant-brainO “sintoma” mais presente é o esquecimento de coisas corriqueiras, como o telefone de casa ou o nome de um artista muito admirado. Mas o ponto que mais preocupa é que esse novo modo de agir pode interferir em habilidades e processos que são críticos no dia a dia.

Um dos testes conduzidos por Sparrow em seus estudos foi bem simples: a um grupo de voluntários foi dada a tarefa de digitar no computador frases de curiosidades, como “o olho do avestruz é maior que o seu cérebro”. Todos foram orientados a memorizar o máximo possível de afirmações. Posteriormente, o grupo foi dividido em dois. O primeiro foi informado de que as informações digitadas seriam apagadas. O segundo, não. Na etapa final, que consistia em revelar as afirmações memorizadas, o grupo que não sabia que as informações seriam apagadas teve desempenho bem pior.

No ambiente de ensino, esse comportamento pode dificultar o desenvolvimento do raciocínio lógico ou da habilidade de analisar e comparar informações. Isso porque o indivíduo acaba não encontrando necessidade real de estudar o assunto com profundidade.

Em outra parte da pesquisa, voluntários foram submetidos a um teste de Stroop, que mede a nossa reação quando nos deparamos com cores fora do contexto, por exemplo, a palavra ‘azul’ escrita com a cor amarela. A tarefa consistia em identificar as cores das palavras sem se importar com o significado delas. Se você demora mais para identificar ou se lembrar de uma cor, significa que, provavelmente, a palavra associada a ela tem mais importância para si.

mother-and-baby-wearing-google-glassPois bem, a equipa de Sparrow notou que os participantes tiveram mais dificuldades para processar cores relacionadas a nomes como ‘Yahoo’ e ‘Google’, especialmente depois de enfrentar perguntas difíceis, sugerindo que o primeiro impulso dessas pessoas é buscar na internet respostas para as questões que elas não sabem responder.

Essa dependência pode deixar a pessoa perdida quando ela não tem como acessar a internet ou, pela dificuldade de se concentrar em outros meios de obtenção de informação (uma biblioteca, por exemplo), excessivamente cansada.

As pessoas também podem ter dificuldades para estimar esforços ou a habilidade para resolver problemas. Um estudo conduzido por Adrian F. Ward, da Universidade Harvard, mostrou que um grupo de voluntários teve menos desempenho em um teste do que eles acreditavam que teriam. Para eles, é como se a internet fosse uma extensão do cérebro. Se a informação está lá e você tem acesso imediato a ela, fica mais difícil mensurar o que se sabe e o que não se conhece.

 

Afinal, não estamos a ficar burros?

Isso significa que estamos ficando menos inteligentes ou qualquer coisa assim? Não. É necessário levar em conta que a internet propicia o aumento da quantidade de informações com as quais lidamos em curtos intervalos de tempo, logo, o tal do efeito Google também pode ser visto como uma forma que o cérebro encontrou para não ficar (tão) sobrecarregado. Notificações de aplicativos diversos, email, redes sociais, mensagens instantâneas, notícias… É muita coisa para processar.

Não é difícil entender esse mecanismo. Se você tem um único compromisso para a semana que vem, provavelmente se lembrará dele. Mas se são vários, é bom ter tudo numa agenda. Diante desse grande volume de informações, o cérebro priorizará o mecanismo que dá acesso a elas (neste caso, te lembrará de sempre consultar a agenda). Assim, a memória de curto prazo fica livre para outros afazeres.

Betsy Sparrow e outros pesquisadores chamam isso de memória transacional. O que estamos vendo aqui é que o cérebro se comporta do mesmo jeito em relação à internet. Como ali a carga de informações é muito maior, o comportamento retratado pelo chamado efeito Google se torna padrão.

Assim, a percepção do efeito Google serve de alerta, fundamentalmente. Não é ruim termos tanta facilidade para obtenção de informações, mas é importante usarmos os recursos disponíveis com equilíbrio. Via de regra, todo excesso faz mal. Felizmente, é mais fácil do que parece.

googlebrain2Já se sabe que, na hora de estudar, escrever à mão em vez de digitar costuma ter muito mais efeito na memorização e, consequentemente, na compreensão da ideia. Se estamos em um passeio, teremos muito mais benefícios cognitivos e satisfação se não ficarmos o tempo todo preocupados em tirar fotos ou filmar.

Jogos de tabuleiro ou cartas, por exemplo, também ajudam a manter as nossas capacidades de raciocínio e memorização aguçadas. O hábito de ler livros também (mas tem que ser hábito mesmo).

Para quem se o preocupa com o assunto, acima de tudo, vale a pena fazer uma reflexão sobre os hábitos online e, a partir daí, tentar aplicar os ajustes necessários. Se perguntar se você conseguiria executar determinada tarefa sem consultas à internet ou se sujeitar a testes de conhecimento sem ajuda do Google pode ser um bom jeito de começar.

António Almeida

António Almeida

Licenciado em engenharia Informático e Telecomunicações, mestre em Sistemas e Tecnologias de Informação e doutorando em Informática é um apaixonado por todo o tipo de tecnologia. Apostava na troca de informações e acaba de criar uma rede de informáticos especialistas interessados em tecnologia.

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