Baleia Azul: notícia falsa tornou-se num problema

Suicídios, automutilações e notícias de jovens apanhados numa rede de onde não conseguem escapar, com perseguições e ameaças, têm-se propagado nos últimos dias pela imprensa internacional e mesmo em Portugal, onde as informações de cariz sensacionalista também atingiram grandes proporções. O Centro Internet Segura Portugal, que tem a missão de desenvolver actividades de sensibilização para a segurança online e integra a rede europeia InSafe, aconselha porém alguma ponderação em relação ao carácter alarmista das notícias, num fenómeno que passou rapidamente de uma fição para uma ameaça real.

Sofia Rasgado, coordenadora do Centro Internet Segura Portugal explica que a equipa portuguesa tem estado em contacto estreito com os parceiros internacionais e também com os parceiros nacionais, que incluem diversos tipos de organizações, incluindo a PSP e a PJ, para investigar e acompanhar a evolução do Desafio da Baleia Azul e explica a história que está por detrás do fenómeno que terá tido origem na Rússia.

“Há quase um ano atrás, em maio de 2016, a rede deTelevisão Russa “Russia Today”, exibiu uma reportagem sobre grupos pró-suicídio na rede socialVKontakte. Alegadamente, uma adolescente suicidou-se após juntar-se a um destes grupos que aliciavam adolescentes com vídeos de cariz enigmático, recorrendo a códigos e símbolos. A rede explicou que estava a ocorrer um fenómeno de massificação destes grupos designando-o por ‘Cyber Suicide Industrial Complex’“, explica a coordenadora do Centro Internet Segura Portugal.

Depois disso uma agência noticiosa russa, a Novaya Gazeta, reportou 130 suicídios e “uma história com as primeiras referências específicas ao desafio designado por “Baleia Azul” onde um moderador/administrador anónimo atribui aos participantes um conjunto de desafios que devem completar diariamente, perfazendo um total de 50 desafios que giravam à volta de comportamentos de automutilação”.

O nome “Baleia Azul” que foi atribuído ao fenómeno referia-se a um comportamento das baleias que propositadamente dão à costa, onde acabam por morrer.

Os relatos que são recolhidos indicam que quando os utilizadores não cumprem os desafios são ameaçados de diferentes formas, passando pela humilhação, sobre-exposição ou revelação de algum segredo da vítima, ou mesmo a agressão do próprio ou dos seus familiares e amigos.

Em novembro de 2016, owebsitede notícias russo RBTH relatou que um jovem foi detido por ser um administrador de um grupo pró-suicídio na rede socialVKontakte. Embora este caso não estivesse diretamente associado ao caso do jogo “Baleia Azul”, existia uma forte convicção no poder deste grupo, que se estabeleceu com a prisão efetiva deste jovem.

Já no início deste ano, entre fevereiro e março os tablóides britânicos pegaram na história e replicaram a informação das alegadas 130 mortes na Rússia, com oDaily Express,Daily MaileSun a partilharem fotografias deraparigas adolescentes que morreram depois de, supostamente, terem participado nos desafios a completar diariamente, com comportamentos de automutilação.

Sofia Rasgado admite que todas as investigações que se seguiram não provaram a existência destes desafios, nem de casos comprovados, o que indica que a informação não é fidedigna. “Uma investigação realizada pela Radio Free Europe envolveu a criação de perfis “isco”. Esta investigação não teve resultados e tudo aponta para que, nem os suicídios, nem a prisão do jovem, estejam ligadas ao desafio. A história foi dada como “unproven” (não comprovada) pelo website Snopes, que se especializa na validação e desmistificação de vários rumores online”, refere.

Entretanto, no website “NetFamilyNews.org”, Anne Collier, assume que estes artigos não são fidedignos e tratam-se de uma manipulação que pode “afetar pais e crianças vulneráveis”, citando um dos membros do Centro Internet Segura Búlgaro, Georgi Apostolov.

A Polícia Britânica acabou por emitir um aviso sobre o jogo, uma ação que foi replicada por autoridades noutros países, mas a iniciativa foi criticada por estar a dar visibilidade a umhoax, uma informação falsa para enganarum grupo de pessoas, fazendo-as acreditar numa informação que não é real.

Da autoridades policiais o caso dos avisos também escalou a outras organizações. Na Europa, uma das “Linhas Ajuda” da rede “Insafe” reportou que o Ministro da Educação do seu país enviou avisos para todas as escolas, referindo sugestões genéricas sobre jogos online serem perigosos e viciantes, mas sem nenhuma informação que sugerisse que o jogo “Baleia Azul” fosse falso. Na Roménia, já este ano, e após os vários relatos de jovens que ficaram feridos ao participarem nestes desafios, o Ministério dos Assuntos Internos atribuiu à polícia nacional a tarefa de realizar um conjunto de campanhas de sensibilização em escolas, a informar sobre os riscos deste desafio.

“Numa reunião recente dos Centros Internet Segura Europeus, tornou-se claro que embora o jogo “Baleia Azul” possa ter sido inicialmente uma notícia falsa, está a atingir proporções problemáticas com consequências muito graves, baseadas na certeza que alguns jovens e adultos podem estar a explorar o medo em torno deste fenómeno para incentivar outras pessoas a ter práticas de automutilação, e a partilharem os resultados destes comportamentos online”, explica Sofia Rasgado.

Mesmo sem ter sido encontrada nenhuma prova que estabeleça uma ligação entre qualquer suicídio ou morte e este desafio da Baleia Azul, a “Linha Ajuda” do Centro Internet Segura Francês já reconheceu que estes desafios estão a atrair crianças e jovens, em particular os que se sentem deprimidos ou se sentem mais suscetíveis ou predispostos a adotar práticas de automutilação.

Sofia Rasgado lembra porém que “o medo que se prende com o conceito dos cultos suicidas adolescentes online não é recente”. Em 2001, um filme de terror japonês chamado “Suicide Club” explorou esse medo, ao retratar um conjunto de mortes estranhas, envolvendo 54 estudantes que se atiraram para uma linha de comboio. Durante a investigação, os polícias são conduzidos a um website repleto de códigos e símbolos, que está a prever as mortes. Mas alerta para o facto de “o fenómeno da Baleia Azul torna-se mais “apelativo” e mediático, considerando que ocorre numa rede social que a grande maioria das pessoas, incluindo jovens, utilizam”.

Fonte: SapoTek

António Almeida

António Almeida

Licenciado em engenharia Informático e Telecomunicações, mestre em Sistemas e Tecnologias de Informação e doutorando em Informática é um apaixonado por todo o tipo de tecnologia. Apostava na troca de informações e acaba de criar uma rede de informáticos especialistas interessados em tecnologia.

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